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1.
OS PAÍSES QUE PROIBIRAM A VENDA DE ARMAS TIVERAM
AUMENTO DA CRIMINALIDADE E DA CRUELDADE DOS BANDIDOS
A experiência
internacional demonstra que a quantidade de armas nas mãos da população
não determina o grau de violência de uma sociedade. Tanto é assim
que a Suíça, onde a venda de armas é livre e os homens
recebem um fuzil do Exército para guardar em casa, e o Japão,
onde armas de fogo são rigorosamente proibidas, estão entre
os países com as menores taxas internacionais de criminalidade.
Decretar o desarmamento geral como principal medida para coibir a criminalidade
costuma ser um tiro pela culatra. A Jamaica, um dos países mais
violentos da América, baniu as armas de fogo em 1974. De lá para
cá, a situação piorou, e com o acréscimo de
um novo elemento, o mercado negro de armamentos. "Os criminosos jamaicanos
encontram pistolas e revólveres contrabandeados facilmente, enquanto
o cidadão honesto que quer ter uma arma é obrigado a recorrer à ilegalidade",
disse a VEJA o canadense Gary Mauser, pesquisador do Instituto de Estudos
Urbanos do Canadá e especialista em políticas de controle
de armas. Muitos países adotaram o desarmamento em momentos de forte
comoção social. Em estado de choque devido ao massacre cometido
por um louco, em 1996, a Austrália baniu modelos automáticos
e semi-automáticos e tirou de circulação 700.000 armas,
o equivalente a um sexto do arsenal do país –mas o número
de homicídios se manteve inalterado. Na Inglaterra, desde o banimento
das armas com calibre superior a 22 milímetros, em 1997, os crimes
de morte aumentaram 25% e as invasões de residência, em torno
de 40%. "Com a população desarmada os riscos são
menores para os criminosos", diz o economista americano John Lott,
autor de dois livros sobre desarmamento. "Os marginais sentem-se mais
seguros para invadir as casas mesmo que os proprietários estejam
dentro, o que potencializa a violência dos assaltos."
2.
AS PESSOAS TEMEM AS ARMAS. A VITÓRIA DO "SIM" NO
REFERENDO NÃO VAI TIRÁ-LAS DE CIRCULAÇÃO
NO BRASIL
Michel Filho /Ag. O Globo

ARSENAL DESTRUÍDO
Armas apreendidas pela polícia são esmagadas
no Rio de Janeiro: 4 milhões delas estão
nas mãos dos criminosos brasileiros |
A
culpa pelos altos índices de criminalidade e
de homicídios não é da arma, mas
de quem a tem em mãos. Revólveres não
transformam cidadãos em assassinos. O Rio Grande
do Sul é um exemplo. O estado tem a população
mais armada do país –937.000 armas registradas,
ou uma para cada dez habitantes. Ao mesmo tempo, possui
uma das menores taxas de homicídio (doze para
cada 100.000 habitantes). No estado de São Paulo,
há uma arma para cada 74 habitantes e uma taxa
de 28 homicídios por grupo de 100.000 habitantes.
A Suíça é um dos países
mais armados do mundo. São 2 milhões
de armas –entre elas 600.000 fuzis e 500.000
pistolas –para uma população de
7 milhões de pessoas. As ocorrências de
crime por arma de fogo são tão baixas
que nem sequer têm valor estatístico.
Em muitos países, a arma é uma questão
cultural, e não, necessariamente, um instrumento
de agressão. Em especial, os países de
fronteira, com grandes espaços a ser ocupados,
como os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil,
têm a tradição da posse da arma
e da caça. Nas zonas rurais brasileiras, longe
dos pontos policiais, serve para sitiantes e fazendeiros
defenderem suas propriedades de assaltos, invasões
do MST e dos ataques de animais predadores a seus rebanhos
e criações. É por isso, com certeza,
que os sem-terra apóiam o desarmamento. "É muito
fácil jogar a culpa pelo aumento da criminalidade
na arma, e não na falta de investimento na segurança
pública", diz o secretário da Justiça
do Rio Grande do Sul, José Otávio Germano.
As armas, assim como as bebidas alcoólicas ou
os automóveis, não causam estragos por
conta própria. Só se tornam nocivas se
forem mal utilizadas. "Os mesmos argumentos usados
de forma falaciosa para justificar o desarmamento poderiam
muito bem ser utilizados em relação às
mortes provocadas no trânsito para proibir a
circulação de veículos",
diz o economista Marcel Solimeo, da Associação
Comercial de São Paulo.
3.
O DESARMAMENTO DA POPULAÇÃO É HISTORICAMENTE
UM DOS PILARES DO TOTALITARISMO. HITLER, STALIN,
MUSSOLINI, FIDEL CASTRO E MAO TSÉ-TUNG ESTÃO
ENTRE OS QUE PROIBIRAM O POVO DE POSSUIR ARMAS
Antonio
Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, listou
o desarmamento da população entre as
providências essenciais para garantir o controle
totalitário da sociedade. A história
mostra que restringir o acesso da população às
armas é uma das primeiras medidas de qualquer
regime totalitário. "A história
ensina que todos os conquistadores que permitem aos
povos dominados carregar armas acabam caindo",
teorizou Adolf Hitler, em 1942. Hitler desarmou os
alemães e os povos dos países ocupados,
mas distribuiu armas entre milícias fiéis
ao regime. É o mesmo que atualmente fazem Fidel
Castro em Cuba e o coronel Hugo Chávez na Venezuela. "O
desarmamento faz parte da filosofia comunista de que
toda e qualquer liberdade individual deve ser abolida
em benefício do Estado operário",
diz Angelo Segrillo, professor de história contemporânea
da Universidade Federal Fluminense, do Rio de Janeiro.
Nessa linha de raciocínio, Stalin, da União
Soviética, Mao Tsé-tung, da China, e
Pol Pot, do Camboja, desarmaram suas populações.
4.
A POLICÍA BRASILEIRA É INCAPAZ DE
GARANTIR A SEGURANÇA DOS CIDADÃOS
Desde
a sua gênese, na Europa do século XVII,
os Estados modernos têm como um de seus pilares
o princípio de que a autoridade central deve
ter o monopólio legítimo do uso da força
e da violência, tornando-se responsável
pela segurança de todos. O fato de a segurança
coletiva ser atribuída ao Estado, no entanto,
não elimina o direito de autodefesa do cidadão
para preservar a própria vida –o que em
determinadas ocasiões chega a ser uma reação
instintiva. "É por isso que o princípio
de 'legítima defesa' está presente em
quase todos os grandes sistemas de direito do mundo",
diz Eduardo Carlos Bianca Bittar, professor de filosofia
e teoria geral do direito da Universidade de São
Paulo. "A vida é um bem inalienável
e o Estado não pode limitar o poder do indivíduo
de defendê-la", diz Bittar. Em países
como o Brasil, em que a impunidade de criminosos, a
ineficácia das leis e a violência urbana
já fazem parte do imaginário nacional, é natural
que a confiança dos cidadãos no Estado
desapareça. Segundo uma pesquisa da Universidade
de São Paulo, apenas 10% dos brasileiros acreditam
que a polícia garante a segurança da
população. A desconfiança dos
cidadãos tem respaldo nas estatísticas:
apenas um décimo dos 50 000 homicídios
que acontecem por ano no Brasil é esclarecido
pela polícia.
Tasso Marcelo/AE 
DESTINO ERRADO
Duas senhoras cariocas entregam revólveres
e pistolas à polícia durante campanha
do desarmamento, em 2003. Mais de 400 000 armas foram
entregues voluntariamente em todo o Brasil, mas algumas
– as melhores – foram roubadas dos depósitos
da polícia. Sabe-se da origem de pelo menos
83 delas, que acabaram nas mãos de bandidos
de Santos, em São Paulo |
5.
A PROIBIÇÃO VAI ALIMENTAR O JÁ FULGURANTE
COMÉRCIO ILEGAL DE ARMAS
Bandidos
não compram armas em lojas. "A maior parte
das armas em poder do crime organizado é obtida
por meio de contrabando", diz o delegado Carlos
Oliveira, titular da Delegacia de Repressão
a Armas e Explosivos do Rio de Janeiro. Em 2001, essa
delegacia rastreou 1.030 armas apreendidas para descobrir
como elas foram parar nas mãos de criminosos
e descobriu que boa parte delas era de fabricação
brasileira e de uso restrito das Forças Armadas
e da polícia. Muitas tinham sido exportadas
para outros países, sobretudo o Paraguai e os
Estados Unidos, e voltado nos contêineres dos
contrabandistas. Nos morros cariocas, os criminosos
exibem exemplares do Fuzil Automático Leve (FAL),
usado pelo Exército Brasileiro, e do fuzil HK
G3, alemão, utilizado pela Marinha e pela Aeronáutica.
São armas roubadas de sentinelas, compradas
de militares corruptos ou tomadas em assaltos a caminhões
de carga. A proibição do comércio
de armas de fogo não vai pôr fim ao mercado
de armas e munições. A medida, além
de contribuir para o crescimento do mercado clandestino,
pode colocar o cidadão de bem em situação
irregular. Mesmo se tiver uma arma registrada em casa,
ele não conseguirá comprar munição,
a não ser de forma ilegal. Como é óbvio,
a proibição do comércio legal
de armas terá como conseqüência inevitável
a ampliação do tráfico ilegal.
6.
OBVIAMENTE, OS CRIMINOSOS NÃO VÃO OBEDECER À PROIBIÇÃO
DO COMÉRCIO DE ARMAS
No
Brasil há um comércio de armas legal,
sobre o qual o Estado tem controle. O país produz
em torno de 200.000 armas por ano e exporta 70% delas,
sobretudo para os Estados Unidos e para a Indonésia.
Uma parte é vendida aqui diretamente às
Forças Armadas e à polícia. Chegam às
lojas em torno de 20.000 armas. A maioria é adquirida
por empresas de segurança e 3.000 são
compradas por pessoas comuns para uso particular. Os
defensores da proibição do comércio
legal desses artefatos argumentam que as armas acabam
nas mãos de bandidos, roubadas em assaltos a
residências ou nas ruas. Em vista das pesadas
restrições que cercam a venda de armas
no Brasil, todo o mastodôntico referendo foi
criado, em última análise, para decidir
sobre um reles arsenal de 3.000 revólveres e
armas de caça vendidos por ano. Isso num país
em que se estima existirem 8 milhões de armas
clandestinas. Dessa forma se estará abrindo
mão de um dos derradeiros setores do comércio
de armas que agem dentro da lei e sobre o qual o Estado
tem controle. A medida, além de alimentar o
crescimento do mercado negro, pode colocar o cidadão
de bem numa situação difícil.
Mesmo se tiver uma arma registrada em casa, ele não
conseguirá munição, a não
ser com traficantes.
7.
O REFERENDO DESVIA A ATENÇÃO DAQUILO
QUE DEVE REALMENTE SER FEITO: A LIMPEZA E O APARELHAMENTO
DA POLÍCIA, DA JUSTIÇA E DAS PENITENCIÁRIAS
Um
dos argumentos daqueles que defendem a proibição
da venda de armas de fogo é que a medida reduzirá o
número de armas em circulação
e, em conseqüência, cairão os índices
de homicídios. A premissa é duplamente
falsa: primeiro porque o contrabando dará um
jeito de atender à demanda por armas, em especial
a dos bandidos. Segundo porque, mesmo que as armas
disponíveis diminuíssem, isso não
seria suficiente para reduzir a criminalidade. "Crime
se combate com uma polícia honesta e bem equipada,
não com o desarmamento da população",
diz o paulista José Vicente da Silva Filho,
ex-secretário Nacional de Segurança Pública.
As experiências bem-sucedidas de redução
de criminalidade em outros países começaram
pelo combate à corrupção na polícia.
Na década de 90, antes de adotar a política
de tolerância zero ao crime, o então prefeito
de Nova York Rudolph Giuliani foi implacável
com os policiais corruptos. No Brasil, o passo seguinte
seria aparelhar melhor a polícia. O governo
federal gasta, por ano, 170 milhões de reais
com segurança pública. Isso é menos
do que os 270 milhões de reais que serão
gastos com oreferendo. Com esse dinheiro seria possível
comprar 10 500 viaturas e 385 000 coletes à prova
de bala para a polícia. O recurso seria ainda
mais bem aplicado se fosse usado na aquisição
de computadores para as delegacias e na unificação
do banco de dados das forças públicas. "Quanto
melhor a estrutura de informação e comunicação
da polícia, maior sua capacidade de combater
o crime", diz José Vicente da Silva Filho. "Essa é uma
das maiores deficiências da polícia brasileira."
POR
QUE STEDILE APÓIA O DESARMAMENTO
Jonne Roriz/AE
BARRICADA
ANTI-MST
Coelho Júnior e a casa de sua fazenda: encurralado por balas e coquetéis
molotov dos sem-terra |
Seis
de cada dez armas existentes no Brasil estão
em áreas rurais. Sem elas, os sitiantes
e fazendeiros não teriam como se defender
de animais silvestres, manter suas criações
a salvo de predadores e, principalmente, se
proteger de bandidos e evitar furtos e roubos
tanto de gado como de equipamentos e insumos
agrícolas. "Nas áreas rurais,
a dezenas de quilômetros de uma delegacia
de polícia, ter uma arma de fogo é uma
necessidade", diz o agrônomo e deputado
federal Xico Graziano. Sem as armas, perderiam
também um poderoso instrumento de dissuasão
usado para prevenir saques e invasão
do MST. No ano passado, o fazendeiro Luiz Antonio
de Barros Coelho Júnior, na foto ao
lado, armou-se e se entrincheirou em sua propriedade,
no Pontal do Paranapanema, para resistir aos
tiros e coquetéis molotov lançados
pelos sem-terra. É por isso que João
Pedro Stedile, o líder máximo
do MST, apóia o desarmamento: na próxima
invasão, terá a segurança
de que não enfrentará resistência
armada.
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VÍTIMA
DAS ARMAS, INIMIGO DO DESARMAMENTO
Gabriel de àiva/Ag.
o GLobo

KYRILLOS
Assalto na rua o deixou paraplégico |
O
carioca Michel Kyrillos, de 53 anos, não
tem armas. Nas cinco vezes em que foi assaltado
nas ruas do Rio de Janeiro, seguiu as orientações
dos especialistas em segurança e não
reagiu. No quinto assalto, em dezembro de 2002,
ele se assustou –e pagou caro por isso.
Era um fim de tarde de domingo, e Kyrillos
dirigia, acompanhado da mulher, pelas ruas
do bairro de Campo Grande, na Zona Oeste. Seu
carro foi fechado por um grupo de assaltantes
a 200 metros de um posto da polícia.
Ao tentar desviar da armadilha, capotou. Os
ladrões acertaram onze tiros no carro
e um em Kyrillos. Atingido na coluna, ele esteve
internado por quatro meses num hospital e ficou
paraplégico. Foi obrigado a deixar o
emprego de supervisor de vendas e se aposentou
por invalidez. Os assaltantes nunca foram identificados.
Hoje,
Kyrillos, que é fundador do Jeep Club
do Rio de Janeiro, locomove-se numa cadeira
de rodas. Embora tenha sido vítima das
armas, ele é contra o projeto de desarmamento. "Os
bandidos vão continuar tendo acesso
fácil às armas e os políticos
não vão demitir seus seguranças
particulares que andam com revólveres",
ele diz. "Eu não sairia na rua
com uma arma, mas acho que essa é uma
escolha pessoal, um direito do cidadão.
Como a polícia não funciona,
todos nós temos direito a nos defender",
completa.
A
criminalidade no Rio de Janeiro bate recordes
a cada ano, sem que a máquina do Estado
consiga deter sua escalada. De janeiro a junho
deste ano, as tentativas de homicídio,
como a que vitimou Kyrillos, aumentaram 11%
com relação ao ano passado. O
total de roubos registrados nas delegacias
aumentou 6% no mesmo período. Acuada,
a população carioca espera providências
concretas, que nunca se materializam. "O
problema da polícia do Rio de Janeiro é que
ela não tem planejamento. As ações
sempre respondem a problemas pontuais",
diz o sociólogo Ignacio Cano, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
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APÓS
A TRAGÉDIA, AULAS DE TIRO
O
americano Chuck Yeager, o primeiro piloto de
testes a quebrar a barreira do som em um avião
supersônico, perdeu uma irmã em
um acidente com uma espingarda, em 1927. A
tragédia aconteceu quando Yeager tinha
4 anos. Ele e seu irmão, Roy, estavam
brincando com a arma do pai no chão
da sala de estar. Roy encontrou algumas balas
e conseguiu carregar a arma. Sem querer, ele
disparou e acertou a irmã, Doris Ann,
de 2 anos. Depois do funeral, o pai de Yeager
chamou os dois filhos e disse: "Vou ensiná-los
a manejar uma arma com segurança".
Em uma avaliação mais apressada
se poderia considerar como irresponsável
a atitude do pai do piloto. Na perspectiva
da família Yeager, no entanto, o problema
não estava nas armas em si, mas em como
eram usadas. Espingardas faziam parte do equipamento
de uma casa rural americana daquela época,
e elas não disparam sozinhas. Só se
tornam letais se forem utilizadas com a intenção
de matar ou de forma descuidada. No Brasil,
os disparos acidentais representam 5% das mortes
por armas de fogo que ocorrem por ano. É um
número baixo comparado com o de mortes
intencionais, mas é uma das taxas mais
altas do mundo. Isso é um indício
de que os brasileiros são pouco preparados
para um uso responsável das armas. "Não
será proibindo a sua venda que os acidentes
serão evitados. O importante é manejar
com cuidado o armamento", disse a VEJA
o jurista americano David Kopel, autor de dois
livros sobre políticas de desarmamento.
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