O Estado de São Paulo - NACIONAL
Segunda-feira, 27 de setembro de 2004
Municipalização da segurança
esbarra na lei
Promessa
dos candidatos à Prefeitura é inconstitucional,
alertam especialistas FAUSTO MACEDO e MARCELO GODOY
A
municipalização da segurança,
promessa de palanque de candidatos à Prefeitura
de São Paulo, divide juristas, policiais, advogados,
promotores e especialistas. Uns avaliam que a ampliação
das atribuições e da competência
do policiamento municipal, a cargo da Guarda Civil Metropolitana,
pode ser a solução para o drama da violência
na capital.
Outros
consideram que a proposta dos políticos
não tem suporte jurídico e, em termos práticos,
não resolveria muita coisa no dia-a-dia.
Apenas
em um ponto, eles se entendem: a municipalização é inconstitucional.
"Corremos o risco do surgimento de guardas pretorianas
pelo Brasil afora, muitas delas controladas pelo crime
organizado", teme o promotor Carlos Cardoso, assessor
de direitos humanos da Procuradoria-Geral de Justiça
(Ministério Público Estadual). "Penso
que o correto é reestruturar as nossas polícias,
Federal, Civis e Militares."
Paulo
Maluf, candidato pelo PP, foi o primeiro a defender
a municipalização.
Ele
admite que sua proposta deve implicar em alteração
da Constituição. Seu assessor de imprensa,
Adilson Laranjeira, informou que Maluf "pretende
usar sua força política como prefeito de
São Paulo para mudar a Constituição".
Enquanto
isso não acontece, só tem um
jeito: "Maluf vai aumentar o efetivo da guarda e
fazer com que ela atue, sempre até onde a lei
permitir, em colaboração com a PM",
destaca Laranjeira.
Pistola - Se eleito, Maluf vai instalar a Secretaria de Segurança Municipal, na verdade uma experiência
que sua rival, Marta Suplicy, do PT, já encampou
- ela criou a Secretaria Municipal de Segurança
e acha que "o resultado foi extremamente positivo".
"Os candidatos falam (em municipalização),
mas não têm conhecimento de que existe o
impedimento constitucional", insiste o promotor
Cardoso. "O fato é que o País não
tem obtido bons resultados na luta contra a criminalidade
e a preocupação com segurança está entre
as prioridades, é um tema que se presta ao jogo
político, à exploração eleitoral."
Para
o promotor, "alguns (políticos) abordam
com seriedade, outros nem tanto porque apresentam postulações
inexeqüíveis, demagógicas".
Aparelhar - A advogada Fernanda Vargues Martins, vice-presidente
do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, é taxativa: "A
simples municipalização não resolveria
o problema da segurança pública. No que
ajudaria na segurança de São Paulo dar
poder de polícia a guardas civis metropolitanos,
infelizmente, tão ou mais despreparados que os
policiais militares?"
Fernanda
ressalta que o artigo 144 da Constituição
dispõe sobre os órgãos encarregados
da segurança. O parágrafo oitavo desse
artigo prevê a criação das guardas,
pelos municípios. Ela destaca que a competência
das guardas está "claramente definida":
proteção dos bens, serviços e instalações
municipais.
Marta
Suplicy acha que "seria interessante" a
municipalização. "Nós estamos
estudando", anunciou. Ela disse que "não
sabe" se é estelionato os candidatos falarem
nesse tema. "Não sei, não tenho me
pronunciado. Aliás, não tenho acompanhado
o que eles têm falado. Eu acho interessante. Agora,
isso depende lei, não depende só do desejo."
A
prefeita anotou que "muita gente foi contra" a
secretaria de Segurança.
Ela
afirmou que a Guarda Civil, durante sua gestão,
tornou-se "presente".
Havia
apenas uma base comunitária da corporação
no Centro da cidade. Agora, são oito. "É da água
para o vinho", empolga-se Marta, que disse ter herdado
uma guarda desequipada, sem coletes à prova de
bala. "Agora é uma guarda equipada, uma guarda
que trabalha", garante.
Para
o juiz Marco Antonio Nahum, presidente do Instituto
Brasileiro
de Ciências Criminais (IBCCRIM), "a
descentralização da polícia, se
por um lado atende às necessidades regionais,
por outro, pode se tornar uma estrutura incontrolável." Nahum
prevê que "cada região agirá de
uma forma, caso a comunicação não
seja adequada". Ele advertiu: "Vale ressaltar
que essa descentralização em nada muda
o índice de criminalidade, apenas tratando das
causas de natureza social é que conseguiremos
inibir os crimes."
olitica@estado.com.br
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