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- O ESTADO DE S.PAULO
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Quinta-feira, 04 de novembro de 2004
O
triunfo da América profunda
A
final, não terá sido nem o Iraque, nem
o terrorismo, nem a economia, nem a política de
saúde, nem a pessoa do presidente George W. Bush
o fator crítico das eleições nos
Estados Unidos que terminaram com a sua reeleição.
Obviamente, todos esses temas pesaram de uma forma ou
de outra nas escolhas dos mais de 113 milhões
de americanos que chegaram a fazer filas quilométricas
para votar, numa formidável reviravolta dos modestos índices
habituais de comparecimento às urnas no país.
Mas tudo indica que a mais importante causa singular
da copiosa safra de votos colhida pelo Partido Republicano
na disputa pela Casa Branca e também para o Capitólio
está na força das posições
conservadoras em relação ao heterogêneo
conjunto de questões que entrelaçam governo
e vida privada, enfeixadas na expressão valores..
Direito
ao aborto, pesquisas com embriões humanos,
reconhecimento das uniões homossexuais, financiamento
público de iniciativas filantrópicas religiosas,
programas de combate à aids baseados na abstinência
sexual dos jovens, tolerância zero com os menores
infratores, pena de morte, porte de armas, ensino da
versão bíblica da criação
do homem ao lado ou em lugar da teoria da evolução,
confluência entre Estado e Igreja - eis o repertório
dos assuntos tratados sob o prisma da moralidade e do
primado tácito da fé que ocupam na sociedade
americana um lugar sem paralelo no mundo desenvolvido.
O gradativo avanço desses issues polêmicos
para o centro do ideário republicano, a ponto
de dominá-lo, é talvez a expressão
mais acabada da revolução conservadora
das últimas décadas nos Estados Unidos..
Passando
a influenciar decisivamente os termos do debate público nacional, a direita religiosa encontrou
o porta-voz ideal em um George W. Bush "renascido
em Deus" e membro do patriciado anglo-saxão
protestante transformado em homem comum, capaz de tratar
um problema imensamente complexo de segurança
nacional, a ameaça terrorista, como um confronto
apocalíptico entre o Bem e o Mal. Em novembro
de 2000, apenas uma parcela dos muitos milhões
de americanos para os quais a religião deve pautar
a política se abalou às urnas para sufragar
o seu candidato natural. A provável explicação
para o desinteresse é que, a fim de derrotar o
democrata de centro Al Gore, Bush fizera uma campanha
desprovida de fervor fundamentalista, pregando um suave "conservantismo
compassivo" e prometendo ser "um unificador,
jamais um divisor". Falara para a América
moderada, não para a América profunda.
E o 11 de setembro ainda estava por acontecer..
Desta
vez - enquanto a mídia se concentrava na
maciça campanha de recrutamento de novos eleitores
a que se entregavam os democratas e os partidários
do "qualquer um, menos Bush" -, os operadores
republicanos arregimentavam sem alarde os aliados ausentes
há quatro anos e geralmente fora do radar das
pesquisas. Pelo menos 3 milhões dos americanos
levados a votar na terça-feira são pessoas
religiosas para quem valores pesam mais do que, por exemplo,
empregos. A política econômica de Bush empobreceu
a maioria deles. Ainda assim, o alvo primeiro de seu
ressentimento social continuou a ser a elite liberal
das costas Leste e Oeste do país, encarnada em
John Kerry, distante, quando não desdenhosa da
real América. Segundo dados de boca-de-urna, nada
menos de 20% dos eleitores levaram em conta na hora do
voto os valores morais. E 30% se declararam evangélicos
- mais do que na população em geral..
Daí a derrota da legalização do
casamento gay nos 11 Estados onde o assunto foi a plebiscito
e a ampliação da supremacia do partido
de Bush nas duas casas do Congresso, graças aos
Estados mais conservadores. Acima de tudo, arquivadas
as esperanças democratas de que John Kerry poderia
se eleger no Colégio Eleitoral graças aos
20 votos de Ohio - onde cerca de 200 mil sufrágios "provisórios" aguardam
validação, e a vantagem de Bush era de
130 mil -, o triunfo nacional do presidente por 3,5 milhões
de votos deu-lhe a legitimidade que lhe faltara em 2000,
quando perdeu por 540 mil e chegou à Casa Branca
sabe-se bem como. Por isso, Bush deverá ser ainda
mais duro na frente doméstica do que no primeiro
mandato, com o apoio do Capitólio e de uma Suprema
Corte com novos juízes por ele nomeados.
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