Brasília, quarta-feira, 28 de
março de 2007
VIOLÊNCIA
A disputa agora será na ONU
Após derrota no plebiscito do desarmamento, ONGs
recolhem sugestões para tratado internacional
sobre controle de armas. Nações Unidas
vão apreciar proposta em 2010
Hércules
Barros
Da equipe do Correio
Ronaldo de Oliveira/CB

Agente social Maria de Melo apresentou sua experiência
com crianças em situação de
risco em Samambaia |
Derrotadas
no plebiscito sobre o fim do comércio
de armas no Brasil em 2005, organizações
de combate à violência vão tentar
uma nova investida pelo desarmamento no país.
A Rede Desarma Brasil promove, até o dia 11 de
abril, 15 encontros com líderes comunitários
da Bahia, Pará, São Paulo, Rio Grande do
Sul e Distrito Federal (DF). O objetivo é traçar
propostas pró-desarmamento que serão enviadas à Organização
das Nações Unidas (ONU). Até 2010,
quando será realizada uma nova assembléia-geral,
a ONU espera formular um tratado internacional sobre
o controle de armas no mundo. As entidades querem que
o Brasil assine essa proposta e, dessa forma, proíba
ou reduza o comércio de armamento no país. A idéia de fazer um tratado sobre o controle
mundial de armas surgiu em 2003 a partir da sugestão
de organizações não-governamentais,
lideradas pela Anistia Internacional, da qual faz parte
da Rede Desarma Brasil. A intenção de criar
uma campanha sobre o tema recebeu o aval da ONU em 2006,
quando 153 países dos 192 integrantes da organização
reconheceram o sofrimento imposto à humanidade
pelo uso indiscriminado da armas de fogo, e decidiram
reivindicar um tratado destinado ao controle de armas
e munições no mundo.
“A previsão é de que a ONU elabore o Tratado
Internacional de Comércio de Armas (TCA) na Assembléia
Geral de 2010 e que o acordo tenha poder de lei”, explica
Beatriz Cruz, coordenadora de projetos do Instituto Sou
da Paz. Ela esteve ontem em Brasília para coordenar
o encontro com o comitê local. Estiveram presentes
na reunião 31 líderes comunitários
de diferentes cidades do DF e entorno.
O documento
com as conclusões finais das consultas às
entidades representativas do país será entregue
ao Ministério das Relações Exteriores,
no próximo dia 23 de abril. Em 2008, a ONU vai
criar um grupo de especialistas, encarregados de analisar
as sugestões dos países que estão
discutindo a proposta de como deve ser o formato e o
conteúdo do tratado. Esse documento é que
será votado na assembléia geral da ONU.
A agente de
social Maria da Guia Melo, 55 anos, trouxe de Samambaia
a experiência de projetos que envolvem
comunidades em situação de risco há mais
de 30 anos. Para Maria, o Brasil precisa incluir no tratado
o combate à pobreza como forma de reduzir a violência.
“A miséria provoca adolescentes violentos. Sem
perspectivas, meninos que assistem ao pai se drogar e
a mãe se prostituir acabam caindo no crime. A
falta de estrutura familiar acaba refletindo na rua”,
diz. Maria carrega no corpo as marcas da violência.
Em 1996, foi vítima de bala perdida durante tiroteio
na porta de casa. “Foram assaltar o carro de pessoas
que me visitavam. Um amigo estava armado, revidou a abordagem
dos bandidos e acabei baleada”, diz.
Segundo a
representante do Sou da Paz, a intenção
da Rede é ouvir a sociedade civil organizada para
que diferentes segmentos possam dar sugestões
do que os brasileiros pensam sobre armas e desarmamento.
Em São Paulo, foram feitas reuniões com
associações de defesa dos direitos das
mulheres e dos jovens e, hoje, será a vez de policiais
darem sua contribuição. “Também
será feito um encontro com os empresários
paulistas”, adianta Beatriz Cruz. Até agora, os
questionamentos são em relação às
formas de entrada de armas no país, legal ou ilegalmente.
“Falaram em proibir lojas de armas nas fronteiras do
Brasil e de países da América do Sul para
dificultar o trânsito de armas no continente”,
exemplificou.
Mais
uma megaoperação
A megaoperação realizada pelas polícias
civis em 25 estados e no Distrito Federal, na semana
passada, resultou na prisão de 2.450 pessoas,
segundo o balanço final divulgado ontem. A polícia,
entretanto, não tinha informações,
até o início da noite, sobre quantos presos
continuavam atrás das grades. Segundo o Conselho
Nacional dos Chefes de Polícia, responsável
pela divulgação do saldo, a informação
não foi solicitada às secretarias de segurança
pública envolvidas na operação,
inédita no país, que mobilizou 25 mil policiais.
Satifeitos
com o resultado, os delegados gerais dos estados já planejam uma nova ação,
a ser realizada ainda neste primeiro semestre. “Só falta
definir o foco dessa nova operação”, disse
o vice-presidente do conselho, Cléber Botelho
Fernandes, também delegado-geral de polícia
do Distrito Federal. A megaoperação realizada
semana passada teve como objetivo cumprir mandados de
prisão.
Dados do Infoseg,
o maior banco de dados criminais do país, mostram que cerca de 550 mil mandados de
prisão jamais foram cumpridos pelas polícias.
O número supera a população carcerária
atual, que atualmente é de 401 mil presos.
Nem paciente de hospital escapa de bala perdida
Depois que
uma bala perdida atingiu o corpo de uma mulher durante
seu velório, em 2006, uma senhora de 80
anos foi vítima de um projétil quando estava
internada em uma clínica, no bairro de Botafogo,
na Zona Sul da cidade. Ela foi atingida por uma bala
de raspão no braço direito.
Segundo a
polícia, o disparo partiu de um dos
prédios vizinhos ao hospital, que fica próximo
ao Morro Dona Marta. O caso foi divulgado à imprensa
uma semana depois do registro policial a pedido da família
da vítima Elza Freitas Rohr. “Esse tiro pode ter
sido um disparo acidental feito por alguém que
limpava a arma, brincava com a pistola ou pode ser fruto
de um conflito doméstico, mas não descarto
a hipótese da clínica ter sido alvejada.
Nosso trabalho agora é apurar quem atirou e o
porquê”, disse o delegado-titular da 10ª Delegacia
de Polícia (Botafogo), Eduardo Baptista Filho,
que investiga o caso.
Desde o início do mês, 29 pessoas foram
atingidas por balas perdidas no estado do Rio. Sete delas
morreram. Elza foi atingida às 15h50, quando estava
deitada na cama conversando com uma familiar que a acompanhava.
A bala — de uma pistola calibre 9mm — atravessou o vidro
da janela do quarto no quinto andar do prédio,
feriu superficialmente o braço da idosa e fez
um buraco na parede. Ela permanece na clínica
e não corre risco de morte, mas foi transferida
de andar. A família não revelou o motivo
da internação dela.
A perícia, que determinará a trajetória
da bala, foi realizada no mesmo dia e deverá ficar
pronta até a próxima semana. “Não
há qualquer hipótese de o disparo ter partido
de uma comunidade carente. A clínica está cercada
por prédios. As investigações estão
avançadas e vamos trabalhar agora por exclusão
para saber de qual apartamento partiu o tiro”, declarou
o delegado.
Cercada por
edifícios em uma área residencial
de Botafogo, a Clínica Sorocaba é uma das
mais tradicionais do Rio e freqüentemente recebe
em seus quartos artistas, diretores de TV e políticos.
Um dos destaques do prédio são os dois
painéis localizados simetricamente no hall de
entrada do mosaico de autoria do pintor Paulo Werneck,
tombados pelo Patrimônio Cultural do Rio.
A
clínica está cercada por prédios.
vamos trabalhar agora por exclusão para saber
de qual apartamento partiu o tiro
Eduardo Baptista Filho, Delegado
Editora: Ana Paula Macedo// ana.paula@correioweb.com.br
Subeditor: Olimpio Cruz
e-mail :olimpio.cruz@correioweb.com.br
Tels. 3214-1172
|